Por Joyce Moura*
Nos últimos anos, o Brasil tem vivido uma espécie de guerra permanente de narrativas. Cada lado acusa o outro de corrupção, de aparelhamento, de abuso de poder. E, no meio dessa disputa, muitas vezes o que se perde é algo fundamental para qualquer democracia: o princípio da coerência.
O caso envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro trouxe à tona nomes de empresários, políticos e autoridades que transitam no debate público. Entre eles aparecem figuras ligadas ao campo da direita, como Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira, além de menções indiretas ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. Além de Fabiano Zettel, seu cunhado, que era, segundo informações, quem agiu fora das quatro linhas para o banqueiro. Foi preso, tirou sua própria vida, não teve tempo de falar com a PF o que sabia. O que sabemos é que foi um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas
Também surgem nomes ligados à estrutura do sistema financeiro, como Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central do Brasil, e Belline Santana, indicado durante aquela gestão e investigado em desdobramentos que apuram possíveis irregularidades regulatórias.
Nada disso, por si só, significa culpa. Em um Estado de Direito, ninguém deve ser condenado antes de investigação e julgamento. Esse princípio vale para todos.
Mas a pergunta que precisa ser feita é outra.
Se todas essas citações, relações ou suspeitas estivessem associadas a políticos da esquerda, qual seria a reação de muitos setores da direita hoje?
Provavelmente estaríamos vendo discursos inflamados, pedidos de CPI, protestos nas ruas, transmissões indignadas nas redes sociais e uma avalanche de acusações de corrupção e aparelhamento.
E aqui está o ponto central da reflexão: a indignação seletiva corrói a credibilidade de qualquer discurso moral.
Não existe ética “de um lado só”.
Não existe combate à corrupção que funcione apenas contra adversários políticos.
Ou o princípio vale para todos, ou ele deixa de ser princípio e vira apenas instrumento de disputa política.
Quando André Mendonça foi indicado ao Supremo Tribunal Federal, muitos celebraram sua chegada. A própria ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi filmada comemorando, pulando e orando em línguas, dizendo que ali estaria um homem de fé, um homem de valores, um ministro que representaria “Deus, pátria e família”.
Essa expectativa não veio apenas da política. Veio também de setores religiosos que acreditavam que sua presença no tribunal simbolizaria justiça, moralidade e retidão.
Mas a fé, se for verdadeira, não pode ter lado.
Hoje, Mendonça acumula relatorias de investigações importantes, entre elas as que apuram suspeitas envolvendo o Banco Master e também fraudes relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social.
No caso Master, o ministro decidiu restringir o acesso da própria Polícia Federal às investigações, delimitando quais setores da corporação poderiam acessar informações e quais não poderiam. Determinou, por exemplo, que a Corregedoria da PF tenha acesso apenas a eventuais condutas de policiais federais e que a Diretoria de Inteligência compartilhe dados apenas com agentes diretamente envolvidos na investigação.
Também houve decisões que limitaram depoimentos e procedimentos investigativos, além de autorizações para encontros entre investigados e advogados com regras específicas.
Já na investigação relacionada ao INSS, Mendonça autorizou a quebra de sigilo do empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo as informações até agora, a análise das contas mostrou movimentações compatíveis com a atividade empresarial de quem possui empresas: entradas, saídas, pagamentos e até registro de herança recebida. Ainda assim, o caso ganhou ampla repercussão pública e foi explorado politicamente.
É justamente nesse ponto que surge uma pergunta incômoda, mas necessária.
A justiça está investigando todos com o mesmo rigor?
Porque justiça, se for verdadeira, não pode escolher quem investigar.
E moralidade, se for verdadeira, não pode depender do partido de quem está sendo acusado.
O Brasil já viu figuras poderosas caírem quando investigações avançaram. O ex- juiz Sergio Moro foi alçado ao posto de herói e depois teve sua trajetória questionada quando suas próprias condutas passaram a ser debatidas publicamente. Hoje é senador. Alexandre de Moraes também enfrenta críticas e investigações políticas e jurídicas.
E se houver irregularidade comprovada de qualquer autoridade, seja quem for, que responda por isso.
Porque, no fim das contas, a pergunta mais importante não é sobre direita ou esquerda.
A pergunta é sobre instituições.
O que nós, cidadãos, esperamos do Supremo Tribunal Federal?
Esperamos proteção a grupos políticos?
Esperamos silêncio diante de suspeitas inconvenientes?
Ou esperamos aquilo que justifica a existência de uma corte constitucional: imparcialidade, rigor e igualdade perante a lei?
A democracia só sobrevive quando a lei vale para todos, aliados e adversários.
Quando investigações não escolhem lado.
E quando a justiça não se curva à conveniência política.
Sem isso, o que sobra não é Estado de Direito.
É apenas disputa de poder.
E a história mostra que quando a justiça perde credibilidade, quem paga a conta é sempre a sociedade.
*É jornalista.
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