
247 – As legendas do centrão que sinalizam compor a base do presidente Lula (PT) para o próximo mandato movimentam-se para reduzir a hegemonia do PT na articulação política e reivindicam o comando da pasta responsável e de postos no Legislativo, informa o jornal O Globo.
Atualmente, o PT mantém sob seu domínio a Secretaria de Relações Institucionais e a Casa Civil, além da liderança do governo na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso Nacional.
A despeito de terem apoiado Flávio Bolsonaro (PL) na disputa de segundo turno, a federação União Brasil-PP e o Republicanos figuram entre as forças partidárias abertas a selar acordo com a gestão petista com o intuito de assegurar governabilidade parlamentar. Da mesma forma, MDB e PSD, que adotaram posição de neutralidade no pleito, organizam-se para conquistar cargos no primeiro escalão. Embora tenham integrado os ministérios do terceiro mandato presidencial, os cinco blocos políticos ainda não formalizaram se adotarão postura de base aliada, oposição ou independência.
A necessidade de descentralizar o comando foi enfatizada pelo líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (PE), que ressaltou que os diálogos oficiais ainda não começaram. “O governo tem que ser amplo. O presidente vai precisar de apoio e não pode fechar só com o PT no comando político. Isso foi um erro nesse governo Lula 3”, declarou o parlamentar.
Na mesma linha, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, confirmou que a sigla já foi contatada por interlocutores do Planalto. “O governo já nos procurou desta vez, sim. Lula precisa ter uma postura para unir o país e aumentar o apoio, algo que não conseguiu no terceiro mandato”, afirmou Kassab em entrevista à newsletter Jogo Político, do jornal O Globo.
Por outro lado, alas petistas defendem cautela e critérios rígidos. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), argumenta que a entrega de cargos a esses partidos precisa estar vinculada ao compromisso real de votos no Parlamento — contrapartida que nem sempre se concretizou ao longo do terceiro mandato.
A urgência de uma base sólida é reforçada pelas projeções na Câmara e no Senado, onde o Executivo enfrentará um cenário ainda mais adverso diante do crescimento expressivo do PL. A legenda oposicionista passará a contar com 121 deputados federais no próximo ano — um ganho de 24 cadeiras em relação à bancada atual — e ocupará 29 vagas no Senado, o que representa mais de um terço daquela Casa. Diante desse quadro, o PT, que dispõe de 70 deputados, dependerá inevitavelmente da composição com União Brasil, PP, Republicanos, PSD e MDB para obter maioria em votações cruciais.
Paralelamente, Lula atua para viabilizar a recondução dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP). Auxiliares e articuladores concordam que o Palácio do Planalto ficará mais exposto às exigências das duas lideranças para aprovar projetos estratégicos. Há também a avaliação interna de que o Executivo precisa estruturar uma base extremamente coesa na Câmara para compensar os obstáculos no Senado, onde a oposição ampliou sua presença e deve impor pautas de embate direto com o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Mesmo com a aliança de PP, Republicanos e União Brasil com a candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno, dirigentes dessas agremiações sustentam que a administração federal não pode ignorar sua relevância governamental. Como argumento defensivo, ressaltam que as siglas mantiveram neutralidade no primeiro turno — evitando ceder tempo de televisão à candidatura adversária — e concederam liberdade às alas governistas locais no segundo turno, citando os exemplos dos deputados Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e Silvio Costa Filho (Republicanos-PE).
Entretanto, há uma ponderação pragmática entre os caciques partidários: assumir a articulação política gera desgaste direto devido às inevitáveis fricções entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. Por essa razão, boa parte das bancadas do centrão prefere gerenciar ministérios com forte orçamento de obras e entregas visíveis, como as pastas das Cidades e do Desenvolvimento Regional.
Ainda assim, uma das propostas em análise no bloco para a articulação é a indicação de Silvio Costa Filho (Republicanos-PE) para assumir o Ministério das Relações Institucionais. O parlamentar, que já foi ministro de Portos e Aeroportos e atua como líder da maioria na Câmara, possui forte proximidade com o presidente da Casa, Hugo Motta.
Simultaneamente, a bancada do PP na Câmara busca ampliar sua cota de indicações no Executivo. Após emplacar o deputado André Fufuca no Ministério do Esporte durante o terceiro mandato — Fufuca foi eleito senador e ainda não definiu se assumirá a cadeira no Senado ou se permanecerá na Esplanada —, deputados progressistas tentam guiar Aguinaldo Ribeiro para o ministério. Em movimento similar, os deputados Moses Rodrigues (União-CE) e Pedro Lucas Fernandes (União-MA) pleiteiam a chancela de sua legenda para integrar o primeiro escalão.
No Senado, o foco principal do Planalto é evitar o enfraquecimento político decorrente da nomeação de senadores titulares para ministérios, dinâmica vista no mandato anterior que acabou deixando a bancada nas mãos de suplentes sem expressão partidária. Nesse sentido, aliados de Lula defendem que o senador Renan Filho (MDB-AL), ex-ministro dos Transportes, permaneça no exercício do mandato parlamentar, figurando como o nome mais cotado para assumir a liderança do governo no Senado. Tanto Renan Filho quanto Silvio Costa Filho informaram a interlocutores que a ocupação dessas funções ainda passará por rodadas diretas de negociação entre Lula e os presidentes dos partidos.
Apesar das articulações em marcha, articuladores governistas deixam claro que as tratativas oficiais sobre o desenho dos ministérios ainda não foram abertas. No momento, a prioridade absoluta de Lula é definir o comando do Ministério da Fazenda, dado o peso decisivo na condução da política econômica do quarto mandato e a necessidade de emitir um sinal de previsibilidade ao mercado financeiro. O presidente tem mantido o atual ministro, Dario Durigan, à frente das interlocuções econômicas, mas estuda nomes para a sucessão, figurando o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), entre os cotados. A expectativa é que o anúncio na Fazenda destrave, na sequência, o loteamento e as nomeações da Esplanada dos Ministérios.











: A implementação gradual já alcança 26 unidades da Federação

