
Flávio Bolsonaro
247 – Os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Emerson Maximiano, apontados como responsáveis pela organização de uma festa com garotas de programa para Flávio Bolsonaro (PL) durante a pandemia de Covid-19, já estiveram no centro de investigações sobre contratos milionários com o governo de Jair Bolsonaro. Ambos foram investigados pela CPI da Pandemia, em 2021, por suspeitas relacionadas à negociação da vacina indiana Covaxin e a movimentações financeiras consideradas suspeitas
Segundo reportagem da Revista Fórum, baseada em revelações publicadas pela revista piauí nesta quarta-feira (21), a confraternização ocorreu em 17 de julho de 2020, em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília. Os empresários, ligados à Precisa Medicamentos, teriam levado três garotas de programa de São Paulo para participar de um churrasco com o senador, que também teria recebido um relógio Rolex de presente de Trento.
O episódio aconteceu quando o Brasil já registrava mais de 76 mil mortes por Covid-19. Naquele período, o então presidente Jair Bolsonaro minimizava a gravidade da crise sanitária, enquanto seu governo enfrentava críticas pela condução da pandemia e pelas negociações para aquisição de vacinas.
A revelação também chama a atenção pela relação posterior entre Flávio Bolsonaro e os empresários. Três meses depois da festa, o senador intermediou uma reunião de Maximiano com o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano. Em 2021, Flávio defendeu publicamente uma diretora da Precisa Medicamentos durante a CPI da Pandemia.
A sequência de episódios evidencia contatos entre o senador e representantes da empresa, mas não comprova que sua atuação política tenha ocorrido como contrapartida aos benefícios relatados pela investigação jornalística.
Danilo Trento: do Rolex às investigações sobre Covaxin e INSS
Danilo Berndt Trento ocupava o cargo de diretor institucional da Precisa Medicamentos e atuava na articulação política e empresarial do grupo controlado por Francisco Maximiano.
De acordo com a piauí, foi Trento quem retirou um relógio Rolex do próprio pulso para entregá-lo a Flávio Bolsonaro ao término da confraternização. O passeio teria durado aproximadamente quatro horas e meia, das 10h30 às 15h.
Em 2021, o empresário passou a ser investigado pela CPI da Pandemia, que apurava irregularidades nas negociações entre a Precisa Medicamentos e o Ministério da Saúde para o fornecimento de 20 milhões de doses da Covaxin.
O contrato, estimado em R$ 1,6 bilhão, foi posteriormente cancelado, sem desembolso dos recursos previstos pelo governo federal.
Durante depoimento à comissão, em setembro de 2021, Trento reconheceu que havia encontrado Flávio Bolsonaro em eventos públicos. Entretanto, amparado por habeas corpus, exerceu o direito de permanecer em silêncio diante de outros questionamentos.
Segundo informações divulgadas pelo Senado Federal, parlamentares identificaram indícios de operações financeiras suspeitas envolvendo empresas de Trento e Maximiano, incluindo possíveis práticas de lavagem de dinheiro.
O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de Trento por fraude em contrato. A recomendação, contudo, não constitui condenação judicial.
Em setembro de 2026, o empresário voltou a aparecer no noticiário após a Folha de S.Paulo revelar que ele era investigado pela Polícia Federal no caso dos descontos associativos ilegais sobre aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram que Trento recebeu R$ 19,2 milhões da J&F. As transferências financeiras, por si só, não comprovam a prática de crimes.
O empresário também ingressou na disputa eleitoral deste ano, tendo sido indicado como primeiro suplente de Janaína Riva (MDB) na corrida ao Senado por Mato Grosso, em uma aliança que reunia MDB e PL.
Não há, nas informações apresentadas, confirmação de condenação criminal definitiva de Trento pelos fatos relacionados à Covaxin ou às movimentações examinadas pela CPI.
Francisco Maximiano: contratos milionários e reunião intermediada por Flávio
Francisco Emerson Maximiano, conhecido como Max, é proprietário da Precisa Medicamentos e possui um histórico de negócios com órgãos públicos que antecede o governo Jair Bolsonaro.
O empresário teve seu nome mencionado em investigações envolvendo contratos com os Correios, a Petrobras, o governo do Distrito Federal e o Ministério da Saúde.
Em 2021, O Globo revelou que Maximiano havia sido citado na delação do ex-vereador Alexandre Romano, que relatou supostos pagamentos ilícitos para viabilizar contratos com a Postal Saúde, operadora de assistência médica dos funcionários dos Correios.
Uma empresa ligada ao empresário, a Global Gestão em Saúde, recebeu R$ 62 milhões da Postal Saúde. A companhia também firmou um contrato de R$ 549 milhões com a Petrobras, posteriormente rescindido pela estatal, que aplicou multa de R$ 2,3 milhões.
Maximiano negou as acusações relacionadas aos negócios investigados.
Durante o governo Bolsonaro, sua empresa passou a negociar a aquisição da Covaxin, desenvolvida pela farmacêutica indiana Bharat Biotech.
A operação tornou-se alvo da CPI da Pandemia depois que o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda relatou pressões incomuns para acelerar os procedimentos relacionados ao contrato.
A relação de Maximiano com Flávio Bolsonaro, entretanto, ultrapassou o encontro realizado na lancha.
Em 13 de outubro de 2020, aproximadamente três meses depois da festa, o senador intermediou uma reunião entre o empresário e Gustavo Montezano, então presidente do BNDES.
O encontro tinha como objetivo discutir possibilidades de financiamento para um empreendimento no setor de telecomunicações.
Flávio reconheceu ter solicitado a reunião, mas negou manter relações comerciais ou financeiras com Maximiano. O BNDES informou que nenhum financiamento foi contratado.
Durante a CPI, Maximiano também foi questionado sobre a possibilidade de o senador ter facilitado o acesso da Precisa Medicamentos a integrantes do alto escalão do Ministério da Saúde.
O empresário negou que Flávio tivesse intermediado esses contatos. Ao ser questionado sobre uma possível aproximação com Jair Bolsonaro para discutir a Covaxin, exerceu o direito ao silêncio.
O relatório final da comissão recomendou o indiciamento de Maximiano por falsidade ideológica, uso de documento falso e fraude em contrato. As recomendações não equivalem a condenações, e as informações disponíveis não confirmam sentença criminal definitiva contra o empresário por esses fatos.
Flávio Bolsonaro defendeu empresa na CPI e elogiou diretora por “patriotismo”
A relação entre o senador e a Precisa Medicamentos também ganhou repercussão pública durante a CPI da Pandemia, em julho de 2021.
Ao participar do depoimento de Emanuela Medrades, diretora da companhia, Flávio Bolsonaro defendeu a atuação da executiva nas negociações para aquisição da Covaxin.
“Parabéns pela sua coragem, pela sua firmeza, por não se intimidar quando algumas pessoas tentam praticamente obrigá-la a falar o que querem ouvir”, declarou o senador.
Na mesma ocasião, classificou a atuação de Medrades como uma “demonstração de patriotismo”, em referência ao suposto esforço para reduzir o preço cobrado pelo laboratório indiano.
As declarações ocorreram enquanto a comissão investigava suspeitas envolvendo o contrato de R$ 1,6 bilhão. A vacina estava sendo negociada por aproximadamente R$ 80 a dose, preço superior ao de outros imunizantes oferecidos ao governo brasileiro.
Flávio também contestou as denúncias relacionadas à operação, argumentando que não poderia ter ocorrido desvio de recursos públicos porque o governo ainda não havia efetuado pagamentos.
As manifestações foram registradas nas notas taquigráficas oficiais do Senado Federal.
A defesa da empresa ocorreu cerca de um ano depois da festa organizada por seus representantes e nove meses após a reunião de Maximiano com a presidência do BNDES, intermediada pelo senador.
Agência responsável pela festa recebeu cerca de R$ 4 milhões de empresas ligadas à Precisa
Outro personagem identificado na investigação é Raphael Barão, proprietário da Barão Turismo, agência contratada pelos empresários para organizar viagens e eventos.
Segundo a piauí, Barão ficou responsável pela logística da confraternização, incluindo o deslocamento das três garotas de programa de São Paulo para Brasília.
Na noite de 16 de julho de 2020, os empresários, o proprietário da agência e as três mulheres embarcaram em um jato executivo Embraer Phenom 300. A aeronave pousou na capital federal às 22h12.
No dia seguinte, o grupo participou do churrasco realizado no Lago Paranoá.
As relações financeiras entre a Barão Turismo e empresas ligadas à Precisa Medicamentos também foram examinadas pela CPI da Pandemia.
Somente em 2020, a agência recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de companhias pertencentes ao grupo econômico de Maximiano e Trento.
Os parlamentares investigaram ainda a abertura de uma empresa nos Estados Unidos e transferências financeiras envolvendo a agência e companhias relacionadas à Precisa.
Durante os trabalhos da comissão, o senador Randolfe Rodrigues levantou suspeitas de que a estrutura empresarial pudesse ter sido utilizada para lavagem de dinheiro.
Barão negou a acusação. Não há confirmação, nas informações apresentadas, de condenação criminal definitiva do empresário relacionada às movimentações investigadas.
Presença de amigo de Flávio e novos relatos sobre relógios de luxo
A reportagem da piauí também aponta que Flávio Bolsonaro teria participado da festa acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro.
O empreendimento havia sido mencionado anteriormente nas investigações sobre o suposto esquema de rachadinhas envolvendo o gabinete do senador quando ele exercia mandato de deputado estadual.
Em setembro de 2026, outra investigação jornalística, publicada pelo PlatôBR, apresentou relatos sobre encontros de Flávio com garotas de programa supostamente intermediados por Santini.
A publicação também mencionou o recebimento de um Rolex Submariner Date, avaliado em aproximadamente R$ 305 mil, em circunstâncias diferentes das descritas na reportagem sobre a festa de 2020.
No episódio do Lago Paranoá, o relógio teria sido entregue diretamente por Danilo Trento.
A investigação da piauí identificou ainda que o grupo viajou para Brasília em uma aeronave operada pela Prime You, empresa de aviação executiva que posteriormente teve o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, entre seus usuários.
Esse vínculo com a empresa de aviação não demonstra qualquer participação de Vorcaro na confraternização ou nas negociações da Covaxin.
A apuração da revista foi baseada em entrevistas, documentos financeiros, registros de voos e informações obtidas por meio de quebras de sigilo realizadas por comissões parlamentares de inquérito.
A revelação da festa acrescenta um episódio à relação de Flávio Bolsonaro com empresários que mantinham interesses comerciais junto ao governo federal durante a gestão de seu pai.
A Precisa Medicamentos acabou se tornando um dos principais alvos da CPI da Pandemia. Ao final dos trabalhos, a comissão recomendou o indiciamento de Maximiano e Trento, enquanto o contrato da Covaxin foi cancelado sem pagamento dos R$ 1,6 bilhão previstos.
Embora os encontros, o suposto presente e a defesa pública da empresa estejam relacionados na sequência apresentada pelas reportagens, os elementos divulgados não permitem concluir que tenha existido uma troca de favores ou contrapartida ilícita por parte do senador.

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