30/08/2026
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Davi Alcolumbre, presidente Lula e Hugo Motta

Aos 80 anos, depois de décadas de vida pública e de uma trajetória que o colocou diante dos mais diferentes adversários, o presidente demonstrou mais uma vez que sabe evoluir em pequenos espaços quando a partida parece travada.

Nas últimas semanas, o governo conseguiu mudar a atitude de lideranças do Congresso que vinham funcionando como obstáculos à tramitação de matérias importantes. Hugo Motta, presidente da Câmara, e, principalmente, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, passaram a admitir o avanço de pautas que, até pouco tempo atrás, encontravam resistência, demora ou simplesmente permaneciam fora das prioridades das duas Casas.

Entre elas está a discussão sobre o fim da jornada de trabalho 6×1, uma reivindicação de grande alcance popular, e a PEC da Segurança Pública, iniciativa estratégica para enfrentar um dos temas que mais preocupam a população brasileira. Outras matérias de interesse do governo e da sociedade também começam a encontrar um ambiente político mais favorável.

Nada disso aconteceu por acaso.

Lula percebeu que não bastava assistir ao Congresso definir sozinho o ritmo da agenda nacional. Era preciso entrar no jogo, conversar, negociar, pressionar politicamente e, sobretudo, demonstrar que determinadas pautas possuem apoio social e podem se transformar em ativos eleitorais para quem as defende — ou em passivos para quem tenta bloqueá-las.

Foi assim que o presidente dobrou os adversários. Não pela imposição, pois Lula sabe que o presidencialismo brasileiro exige composição. Nem pela capitulação diante do Congresso. Fez o que sempre soube fazer: leu a correlação de forças, identificou os interesses de cada jogador e encontrou o ponto em que a resistência deixava de ser politicamente vantajosa. E partiu para o corpo a corpo e o diálogo.

Nesse cenário está também uma disputa de fundo que não pode ser ignorada: o questionamento de Lula e a resistência do STF à invasão, pelo Legislativo, de atribuições próprias do Executivo, expressa no gigantismo e no caráter impositivo que as emendas parlamentares assumiram sobre o Orçamento. A controvérsia envolve mecanismos que, em diferentes momentos, recorreram a expedientes de legalidade mais do que duvidosa e até escandalosamente ilegais. A reação do governo e do Supremo à transformação de parcelas crescentes do Orçamento em instrumentos de poder autônomo do Parlamento ajuda a explicar a tensão que marcou a relação entre os Poderes — e também o peso político da tentativa atual de encontrar novos pontos de acomodação.

Hugo Motta e Davi Alcolumbre não se tornaram subitamente aliados ideológicos do governo. Mas a aproximação em torno de uma agenda importante revela uma mudança no ambiente político, que precisa ser compreendida dentro da lógica do calendário eleitoral e também dos projetos de poder existentes no próprio Parlamento.

A eleição de outubro está no horizonte. Deputados e senadores sabem que terão de prestar contas aos eleitores. E poucas coisas são mais difíceis de explicar numa campanha eleitoral do que ter trabalhado para impedir medidas populares, especialmente aquelas relacionadas às condições de trabalho e à segurança pública.

Mas há um segundo fator, talvez ainda mais importante para compreender a movimentação de Motta e Alcolumbre. Ambos têm interesse direto na composição do cenário político que emergirá das urnas e na busca de apoio para seus projetos de permanecer, ou retornar, ao comando de suas respectivas Casas na nova legislatura.

As presidências da Câmara e do Senado não se decidem no vazio. Elas dependem da formação das bancadas, da correlação de forças depois das eleições e, naturalmente, das alianças que começam a ser construídas muito antes da votação que escolherá os futuros presidentes do Congresso. Nesse cálculo, a relação com o Planalto tem peso.

É difícil imaginar que Hugo Motta e, principalmente, Davi Alcolumbre possam construir projetos de comando parlamentar ignorando completamente o peso de Lula, especialmente se reeleito, e das forças políticas que apoiam seu governo. Se ambos pretendem preservar ou ampliar sua influência nas presidências das Casas, terão de levar em conta uma realidade elementar: um presidente da República reeleito e forte, com base política expressiva e capacidade de influência sobre a futura composição do Congresso, é um ator decisivo nessa disputa.

A disposição para destravar pautas importantes, portanto, pode ser também um sinal de que está em formação um ambiente parlamentar mais favorável ao presidente Lula.

 

Publicado por: Chico Gregorio

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