
247 – Neste domingo, em São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva será oficializado pela sétima vez candidato à Presidência da República. Trata-se de um feito em si, um fenômeno que supera qualquer comparação nacional e global, presente e passada. Aos 80 anos, em sua melhor forma física e mental, depois de vencer três eleições presidenciais e de exercer este seu terceiro mandato em circunstâncias extraordinariamente adversas, Lula chega a uma nova disputa em posição muito competitiva, consagrado como o principal protagonista da história política nacional, numa trajetória que atravessa distintas conjunturas ao longo de quase 50 anos.
Sua candidatura nasce cercada por uma ampla convergência de forças. Além do PT, reúne o apoio direto do PSB, do PV, do PDT e da federação PSOL-Rede. Conquista apoio entre partidos de oposição. Lidera entre jovens, idosos, pobres e mulheres. Avança em todas as regiões. As pesquisas de intenção de voto o dão como o candidato favorito.
Ao mesmo tempo, seu principal adversário, traidor do país, agente do imperialismo, ligado ao crime, enfrenta dificuldades para consolidar uma frente unificada em seu próprio campo político. Na federação União Brasil-Progressistas, no Republicanos e no PSD persistem resistências à formalização de um apoio exclusivo, com lideranças e filiados recebendo liberdade para apoiar outras candidaturas, inclusive a do próprio Lula.
Essa condição política de Lula é consequência direta de um governo que produziu resultados concretos. A economia voltou a crescer, o desemprego caiu aos níveis históricos mais baixos, o salário mínimo voltou a ser atualizado acima da inflação, os preços permaneceram sob controle e o vigor da moeda foi preservado, a despeito da instável conjuntura internacional. Mais recentemente, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), um reconhecimento internacional da redução da subalimentação no país e da recuperação das políticas de combate à pobreza e à insegurança alimentar.
Esses resultados tornam-se ainda mais expressivos quando se recorda o ambiente em que o governo foi iniciado. Saindo do cárcere, num esforço hercúleo, Lula venceu uma dificílima eleição presidencial por margem estreita. Antes mesmo da posse, foi alvo de planos de assassinato tratados por Jair Bolsonaro, posteriormente investigados pelas autoridades. Oito dias depois de assumir, enfrentou tentativa de golpe materializada na invasão e depredação das sedes da Presidência da República, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Governou desde o início com uma expressiva minoria de seu campo político na Câmara dos Deputados e no Senado, além da oposição feroz da mídia tradicional. Contou, vale registrar, com o concurso da florescente mídia contra-hegemônica.
Como se não bastassem os fatores adversos, seu terceiro mandato passou a enfrentar uma inédita pressão internacional. O governo Donald Trump adotou medidas tarifárias assumidamente motivadas a pressionar o processo político brasileiro. Tentou enviar representantes para visitar o presidiário Jair Bolsonaro, enquanto o consulado norte-americano em São Paulo promove encontros acintosos com influenciadores identificados com o bolsonarismo. Soma-se agora a esse ambiente as recorrentes hostilidades verbais do presidente argentino Javier Milei contra Lula e seu governo. Tais movimentos evidenciam que a disputa política brasileira passou a integrar um embate internacional mais amplo entre projetos democráticos e forças da extrema direita, com amplas repercussões geopolíticas. Apesar de inevitáveis tropeços eventuais, Lula é a grande esperança da resistência ao crescimento do fascismo no Ocidente.
Mesmo submetido a um conjunto de pressões internas e externas, Lula voltou a demonstrar a qualidade que melhor explica sua permanência como principal liderança política brasileira: uma capacidade singular de compreender a correlação de forças em cada momento histórico.
Nenhum dirigente brasileiro possui, nos dias de hoje, semelhante capacidade de condução com foco na base e no materialismo político mais cru.
Lula sabe, antes de tudo, reconhecer os cenários de momento e encarar seus limites. Sabe esperar, quando o avanço é impossível, negociar quando a construção de consensos se impõe, absorver derrotas parciais sem perder o horizonte estratégico e identificar a oportunidade, quando ela se oferece, para retomar a iniciativa.
Essa combinação de paciência, capacidade de diálogo, firmeza de propósitos e leitura precisa da conjuntura distingue Lula não apenas de seus adversários, mas também de muitos de seus aliados. Ao longo de décadas, acumulou vitórias políticas extraordinárias. Contudo, esse terceiro mandato representa um novo ápice de sua trajetória.
Depois da perseguição política, da prisão posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal e do retorno à Presidência, Lula transformou um cenário que muitos previam conduzir ao abismo. Os adversários da mídia, dos partidos de oposição e até aliados chegaram a dizer que o presidente estava nas cordas, que era um fantasma sem poder e que o colapso era iminente.
Em meio à névoa do catastrofismo, do pessimismo sincero ou interessado, o presidente soube não se abater e manter o foco no trabalho. Operou nos fundamentos para construir uma situação de maior estabilidade. Dessa forma, conseguiu ampliar alianças, recuperar a confiança internacional do Brasil, restabelecer políticas públicas estratégicas e reconstruir condições para o desenvolvimento econômico e social.
É essa capacidade de transformar conjunturas aparentemente insolúveis em novas possibilidades políticas que explica por que chega à sua sétima candidatura em condições tão favoráveis. A sobrevivência política que muitas cassandras anunciavam condenada converteu-se novamente em apoio encorajador. Os derrotistas não encontram explicações para tamanho renascimento. O isolamento prenunciado não se confirmou. Do próprio combate às contínuas tentativas de inocentar o golpe inicial surgiram as energias que, a muito custo, abriram espaço para a reafirmação da democracia. Lula foi o símbolo da caminhada que marcou este mandato.
Não é apenas como candidato a mais um mandato que Lula chega à convenção. Chega como a principal referência de um campo democrático que, diante do avanço internacional da extrema direita, continua vendo na disputa política, no diálogo e na construção paciente de maiorias o instrumento para enfrentar o imperialismo, defender a soberania nacional, as instituições democráticas e os direitos sociais.
É esse Lula — estrategista da correlação de forças, construtor de consensos e protagonista da reconstrução institucional brasileira — que alcança sua sétima candidatura em um dos momentos mais expressivos de sua longa trajetória pública. Sua candidatura ultrapassa a disputa eleitoral: representa a continuidade de um projeto democrático que hoje se insere em um confronto decisivo e de alcance global entre a democracia e a besta fascista.

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