
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não participar do primeiro debate presidencial das eleições de 2026, marcado pela Band para o próximo domingo (23). A decisão, diante da configuração atual da disputa, é politicamente acertada: líder das pesquisas e com presença no segundo turno como cenário amplamente dominante, Lula não tem razão estratégica para aceitar um formato que tende a transformá-lo em alvo simultâneo de candidatos que ainda lutam para conquistar espaço na eleição.
A campanha petista argumenta que não haverá igualdade de condições para que Lula responda à concentração de ataques dos adversários. Um dos questionamentos envolve a decisão dos organizadores de convidar candidatos que não precisariam obrigatoriamente participar segundo os critérios legais, como Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).
Uma eventual retirada dos convites a Renan e Zema poderia levar a campanha de Lula a reconsiderar a decisão. Por enquanto, entretanto, a possibilidade de mudança é considerada remota. A tendência é que o presidente preserve sua exposição para momentos considerados mais decisivos da campanha, sem abandonar entrevistas, sabatinas e conversas com veículos de comunicação e podcasts.
Líder não precisa jogar o jogo dos adversários
A estratégia parte de uma realidade eleitoral objetiva: Lula ocupa a primeira colocação nas principais pesquisas e seus adversários é que precisam disputar a segunda vaga.
Pesquisa Quaest divulgada na sexta-feira (14) mostrou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro (PL). Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos aparecem com 4% cada, Romeu Zema tem 2% e Augusto Cury (Avante), 2%.
O Datafolha também registrou Lula na liderança, com 40%, diante de 32% de Flávio Bolsonaro.
Nesse cenário, o interesse político dos candidatos situados atrás de Lula é evidente: transformar qualquer encontro televisivo com o presidente em oportunidade para confrontá-lo e conquistar repercussão nacional.
Para Lula, a equação é inversa.
Ao aceitar um debate com vários candidatos de direita e extrema-direita, o presidente assumiria o risco de transformar o encontro em uma sequência de ataques contra seu governo, sua candidatura e sua trajetória, enquanto adversários com índices muito inferiores de intenção de voto ganhariam exposição ao confrontar diretamente o favorito.
Não comparecer, portanto, significa recusar uma arena desenhada sobretudo para quem precisa crescer.
Extrema-direita precisa resolver sua própria disputa
A ausência de Lula também desloca o problema para seus adversários.
Flávio Bolsonaro é hoje o candidato mais bem posicionado para chegar ao segundo turno, mas enfrenta concorrentes que tentam ocupar espaço no eleitorado conservador. Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado precisam encontrar maneiras de reduzir a polarização entre Lula e Flávio para permanecer competitivos.
Levantamento do Poder360 sobre publicações nas redes sociais entre 1º de junho e 11 de agosto mostrou como Lula se tornou o alvo preferencial desse grupo. Entre as críticas publicadas por Zema, Caiado e Renan, o presidente recebeu 149 menções negativas, enquanto Flávio Bolsonaro foi alvo de 59.
A concentração ajuda a explicar a preocupação da campanha petista.
Participar de um debate com candidatos que construíram parte relevante de sua estratégia digital em ataques ao presidente poderia produzir exatamente o cenário que esses adversários procuram: Lula no centro do palco e os demais concorrentes disputando quem consegue atacá-lo de maneira mais contundente.
A estratégia mais racional para o presidente é deixar que eles disputem entre si quem terá força eleitoral para enfrentá-lo.
Flávio também sinaliza ausência
A decisão de Lula produziu ainda um efeito imediato sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.
Integrantes da campanha do senador afirmam que ele também não deverá comparecer ao debate caso Lula mantenha sua ausência. A avaliação dos aliados de Flávio é que a eleição está polarizada entre os dois e que participar sem Lula poderia transformar o candidato do PL no principal alvo dos demais concorrentes.
O movimento é revelador.
Se até o principal adversário de Lula entende que um debate sem o presidente pode representar mais riscos do que benefícios, fica evidente que o encontro interessa sobretudo aos candidatos que precisam romper a polarização.

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