
Poucas entrevistas revelaram tanto sobre a lógica política do senador Styvenson Valentim (Podemos) quanto a concedida nesta segunda à rádio 96 FM.
O parlamentar que chegou ao Senado prometendo romper com as velhas práticas agora admite duas possibilidades que, há poucos anos, provavelmente seriam alvo de suas próprias críticas.
A primeira delas é a eventual escolha da irmã, Anne Kelly Valentim, para ocupar uma das suplências da chapa ao Senado. Questionado sobre o contraste com o discurso de 2018, quando combatia o nepotismo e o domínio familiar na política, Styvenson sequer tentou justificar a antiga posição. Limitou-se a reconhecer a mudança:
“Foi, no passado. Hoje já não é mais”.
A justificativa também chama atenção. O senador afirma que parentesco não impede competência, mas, ao defender a irmã, não apresenta uma única qualificação técnica, política ou administrativa que sustente sua escolha. O argumento central acaba sendo outro: confiança. Afinal, se decidir disputar o Governo do Estado em 2030, quer alguém de sua absoluta fidelidade ocupando sua cadeira no Senado.
O detalhe é que essa mesma irmã foi exposta pelo próprio Styvenson durante a pandemia, quando ele publicou um vídeo criticando o fato de ela ter recebido auxílio emergencial do governo federal. À época, o senador fez questão de demonstrar que nem mesmo um familiar estaria acima de seu rigor moral. Agora, essa mesma pessoa passa a ser considerada apta a assumir um mandato de senador da República.
Mas a segunda revelação talvez seja ainda mais significativa e incoerente com sua trajetória.
Styvenson contou, com absoluta naturalidade, que empresários de fora do Rio Grande do Norte o procuraram oferecendo recursos para sua campanha em troca da suplência. Segundo ele, o interesse desses empresários não era ocupar o mandato, mas ter “acesso” para “destravar pautas” junto ao Congresso Nacional e aos ministérios.
A declaração levanta uma pergunta que o senador não respondeu: acesso para quem e em defesa de quais interesses?
Suplentes assumem mandato, votam projetos, influenciam decisões e representam um estado na ausência do titular. Se o principal atrativo do cargo é abrir portas em Brasília para grupos econômicos, a discussão deixa de ser apenas eleitoral e passa a envolver o próprio sentido da representação política.
Mais reveladora ainda foi a sinceridade com que Styvenson descreveu o sistema. Disse que, na prática, suplentes costumam ser escolhidos por duas razões: voto ou dinheiro. Ou seja, quem agrega capital político ou financeiro ganha espaço na chapa.
Resta, então, uma pergunta que interessa diretamente ao eleitor potiguar: onde entra o Rio Grande do Norte nessa equação?
O mandato pertence ao senador. A cadeira, porém, pertence ao Rio Grande do Norte. E quem ocupa a suplência pode, a qualquer momento, deixar de ser um coadjuvante para se tornar senador da República com os mesmos poderes de quem foi eleito nas urnas.
As declarações de Styvenson talvez não revelem apenas como pretende escolher seus suplentes.
Revelam, sobretudo, o quanto seu discurso de renovação política já não é o mesmo de 2018.

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