
Com menos de uma semana de vida, a ideia de que o “governo acabou” com a derrota da indicação do ministro da Advocacia Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal morreu precocemente em três lances: a operação da Polícia Federal, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca e a aprovação do marco regulatório dos minerais críticos.
A decisão do ministro André Mendonça que teve o senador e presidente do PP, Ciro Nogueira (PI) como alvo coloca na fila o presidente do União, Antonio Rueda, e, finalmente, o presidente do Senado e capitão da derrota do Messias, Davi Alcolumbre (União-AP).
A ideia de que a operação pode vir a unir ainda mais o Centrão em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de uma proposta de anistia abrangente tampouco para em pé. Já há indícios suficientes de que as operações do Master que lavaram o dinheiro do crime organizado nos combustíveis passaram pelos personagens em questão. Uma anistia do gênero atingiria o PCC e o CV? Vai fazer um tremendo sucesso como plataforma eleitoral.
A operação começou a mostrar os atos de ofício dos rolos conhecidos daquele que foi chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro e “vice dos sonhos” do pré-candidato do PL à Presidência, como o próprio Flávio Bolsonaro chegou a declarar. A ação trouxe as digitais da atuação de Ciro nas brechas abertas pelo governo do qual foi o principal operador político: da mesada de até R$ 500 mil recebida por aquele que é apontado como o cabeça do maior rombo financeiro da história até a condição de signatário de propostas legislativas de interesse do Master.
Ciro abre a fila por sua atuação não apenas no Master, vide a presença do banco no fundo de Previdência do Amapá, mas na sua intersecção com os devedores contumazes do setor de combustíveis, cuja lavagem de dinheiro passou pelos fundos operados por Daniel Vorcaro. Os vínculos entre Ciro, Rueda e Alcolumbre com os empresários do setor de combustíveis que se valeram desta lavagem vão desde a sonegação contumaz até o uso desses canais pelo crime organizado.
A preocupação é tanta que, poucos minutos depois de deflagrada a operação, a residência oficial de Alcolumbre se encheu de aliados. Flávio Bolsonaro, porém, deu um jeito de se afastar de Ciro Nogueira. Em nota, disse esperar que haja uma “ampla apuração”.
Se o Centrão apostou na perda de perspectiva de poder de Lula, faltou embutir no cálculo as manhas do roteirista do realismo fantástico da política brasileira, que colocou na relatoria do inquérito do Master um ministro indicado por Jair Bolsonaro e que escanteou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, nas investigações. Qualquer aposta sobre outubro enquanto este inquérito estiver aberto terá o valor de um CDB do Master.
Por Maria Cristina Fernandes no Valor

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