30/05/2026
11:05

Por Nonato Guedes

Foto: Reprodução/Redes Sociais
Foto: Reprodução/Redes Sociais

Parece incrível e, mais do que isso, extemporâneo, que um pré-candidato à Presidência da República faça campanha tentando se eleger vestindo o figurino de impatriota, que luta contra os interesses nacionais ou a soberania do nosso território e assumindo sua condição de vassalo de uma potência imperialista que tem estratégias muito bem definidas de expansão dos seus tentáculos pelo mundo, como os Estados Unidos. Pois é exatamente isto o que tem feito o pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, ao insistir numa cruzada temerária para sanções do governo de Donald Trump contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por não aceitar interferência externa na política interna de combate a facções criminosas que lideram o crime organizado, a exemplo do famigerado Comando Vermelho. Trump deu o passo perigoso, até para a hipótese de uma intervenção militar no Brasil, ao qualificar como “terroristas” as facções criminosas, deturpando, de propósito, uma classificação que está muito nítida nos dicionários.

Os Bolsonaro e seus apoiadores terraplanistas mais próximos comemoraram, eufóricos, a invasão de Trump nos assuntos internos do Brasil e a ameaça implícita à soberania territorial brasileira, numa postura estranha que desafia o senso comum e agride a inteligência racional. O Brasil tem meios e instituições e já está crescidinho o bastante para arbitrar seus próprios conflitos e expurgar ou aniquilar seus próprios focos de desvio ou desajuste social. Não é autossuficiente para dispensar ou recusar apelos externos de cooperação com o uso de instrumentos mais eficazes de extermínio das facções criminosas, atualmente sofisticadas e retroalimentadas pelo poder econômico com que estão se capitalizando. Esse ponto nevrálgico tem sido atacado pelas operações da Polícia Federal, do Ministério Público e de outros agentes da Lei, e está em exame no Congresso um denominado Plano Nacional de Segurança Pública que pode sair do papel a qualquer momento, se houver vontade política dos legisladores, aí incluindo os bolsonaristas que vão disputar reeleição este ano.
Embora seja cedo para mensurar o impacto que a listagem do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas pode causar nas próximas eleições, o professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais, Dawisson Belém Lopes, diz que não está descartada a hipótese do senador Flávio Bolsonaro ganhar tração no tema da segurança pública, área na qual o governo do presidente Lula registrou sua pior avaliação em pesquisa do Datafolha há duas semanas. No reverso da medalha, de acordo com Lopes, o presidente Lula, que é mais experiente em debates, pode virar o jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa. “Esta medida pode acabar sendo vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia da soberania”, explica melhor. Lula já entrou no ataque, tanto a Bolsonaro como a Trump. Disse que Flávio “não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e mendigar intervenção militar americana no Brasil”.

Ao mesmo tempo, o presidente retomou com ênfase o discurso nacionalista para o qual já vinha derivando, ao advertir que o Brasil não aceitará ser tratado como uma “republiqueta”. O professor universitário alerta para outro ponto: o de que a pregação de Flávio se volte contra ele, ou seja, que o tiro possa sair pela culatra. E detalha: “Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais que mantenham interações com o PCC e CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo os empresários da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si”, revelou, em entrevista à BBC News Brasil. Já a classificação de criminosos como terroristas torna-se difícil porque falta a organizações como o Comando Vermelho o viés ideológico como pretexto para a onda de violência que dissemina pelo país.

As organizações criminosas promovem uma atuação anárquica fundamentada em interesses econômicos e financeiros, não na conquista do poder por razões ideológicas e políticas-partidárias, ainda que empresários e políticos espertos procurem tirar proveito dessa onda de insegurança como instrumento de chantagem contra o governo, qualquer governo, que não atenda aos seus interesses corporativistas focados no lucro. Que moral tem o “clã” Bolsonaro para discursar contra a violência e o terrorismo se integrantes seus ou prepostos estão envolvidos com “rachadinhas”, operações ilícitas ou falcatruas de toda ordem? Sim, o presidente Donald Trump abre as portas da Casa Branca e recebe Flávio Bolsonaro, mas tem tanta capacidade de influência nas eleições brasileiras quanto seu secretário Marco Rubio. Já Flávio interessa a ele como um joguete para trair o próprio país e vender a sua honra em troca de migalhas, como uma foto posada liberada para uso em campanha eleitoral. A escolha vai se tornando clara para o eleitor brasileiro, no frigir dos ovos dessa contenda, entre quem é candidato a Presidente da República a favor do país e quem é candidato contra o Brasil.

Publicado por: Chico Gregorio

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