
Enquanto os palcos eram montados, os holofotes testados e o som afinado para o pré-carnaval de Natal, a poucos quilômetros dali a realidade era outra — silenciosa, enlameada e devastadora. Na Zona Norte da capital potiguar, na comunidade de Nossa Senhora da Apresentação, centenas de famílias enfrentam há meses um cenário de abandono que as últimas chuvas apenas escancararam.
Uma cratera aberta há mais de seis meses, ignorada pelo poder público, transformou-se em armadilha urbana. Com as chuvas recentes, o buraco cedeu ainda mais, alagando ruas, invadindo casas e expulsando moradores de seus próprios lares. Pessoas perderam móveis, eletrodomésticos, documentos e, sobretudo, a dignidade de poder entrar em casa sem medo. Muitos hoje estão desabrigados, dependendo da solidariedade de vizinhos ou de abrigos improvisados.
O caos não surgiu da noite para o dia. Ele foi anunciado, denunciado, fotografado e filmado repetidas vezes. Moradores alertaram para o risco, pediram providências, cobraram reparos. O que receberam em troca foi o silêncio — e agora, a lama.
O contraste se torna ainda mais cruel quando se observa o calendário da cidade.
Na mesma semana em que famílias dormem fora de casa e caminham sobre esgoto e entulho, a Prefeitura de Natal celebra o pré-carnaval com festas grandiosas, incluindo um show que custou mais de um milhão de reais aos cofres públicos, com a contratação do cantor Wesley Safadão , reunindo mais de 100 mil pessoas na na avenida da … Alegria.

ALEGRIA PARA UNS…
A pergunta que ecoa nas ruas alagadas da Zona Norte é simples e incômoda: faltou dinheiro ou faltou prioridade?
Não se trata de demonizar a cultura ou o lazer popular, mas de expor uma escolha política clara.
Quando uma cidade opta por investir cifras milionárias em entretenimento enquanto comunidades inteiras afundam na lama, ela revela quem é visto — e quem é ignorado. Para os moradores de Nossa Senhora da Apresentação, a festa passou longe. O que chegou foi a água, o prejuízo e a sensação de abandono.

A tragédia não é natural. A chuva cai todos os anos. O que falta é drenagem, manutenção de bombas, resposta rápida e respeito. O buraco aberto há meses é a metáfora perfeita de uma gestão que tapa o som, mas deixa aberta a ferida social.
Natal dançou, cantou e celebrou. Na Zona Norte, a população também chorou, perdeu muito e segue esperando. Esperando que, depois da música, alguém finalmente escute seu clamor.

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