
Jornalista mossoroense Neto Queiroz***
A pergunta que mais tenho ouvido nos últimos dias é sobre quem vai ganhar a eleição para o Governo do RN neste segundo turno. São centenas de perguntas que recebo por mensagens, nas redes sociais e nos contatos presenciais.
Tenho dado sempre a mesma resposta: estamos vivendo uma disputa acirrada, bastante equilibrada, e é impossível afirmar, neste momento, quem será o vencedor. Quem vencer, provavelmente será por uma diferença pequena.
Mas a resposta não termina aí. É necessário aprofundar um pouco mais a análise para compreender o que está acontecendo nesta reta final.
A passagem de Allyson Bezerra do primeiro para o segundo turno ocorreu em meio a um sentimento de frustração com o resultado das urnas. Ele e seus eleitores esperavam uma votação bem superior. Havia, inclusive, a expectativa de uma vitória ainda no primeiro turno. No entanto, veio a frustração de um empate praticamente numérico com Cadu de Lula.
Com Cadu, aconteceu exatamente o inverso. A expectativa era de uma disputa voto a voto com Álvaro Dias pela segunda vaga. O objetivo era conseguir levar o candidato petista ao segundo turno. O resultado, porém, foi muito acima do esperado.
Portanto, os dois candidatos chegaram ao segundo turno movidos por sentimentos completamente diferentes: Allyson carregando a frustração de um resultado abaixo das expectativas e Cadu impulsionado pela euforia de uma votação surpreendente.
É a partir daí que começa uma nova etapa. E, nessa etapa, o cenário nacional ganhou uma força exponencial na disputa estadual.
O acirramento da eleição presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula, somado à possibilidade real de derrota do presidente, provocou uma forte reação na militância petista.
No Rio Grande do Norte, essa militância passou a se alimentar de duas fontes de motivação: a necessidade de reagir em defesa de Lula e a euforia provocada pelo desempenho de Cadu no primeiro turno. A vinda do presidente a Natal representou justamente a convergência desses dois fatores.
Quanto a Allyson, ele percebeu cedo que o acirramento nacional lhe traria enormes dificuldades, especialmente por não possuir um alinhamento político definido com nenhum dos dois lados da disputa presidencial. Iniciou, então, uma tarefa difícil: convencer o eleitor de que é possível votar nele para governador, independentemente da escolha para presidente.
Essa é a grande dificuldade de Allyson neste momento.
A polarização nacional transformou a eleição em uma espécie de Fla-Flu. Nas arquibancadas, as torcidas empurram seus times em campo. A paixão fala mais alto, a emoção supera a razão e o eleitor passa a enxergar a disputa estadual como uma extensão da eleição presidencial.
É nesse contexto que surgem duas equações matemáticas fundamentais para compreender o resultado do segundo turno.
Do lado de Allyson, a conta é saber quantos votos ele conseguiu conquistar dos eleitores de Álvaro Dias. O ex-prefeito de Natal obteve aproximadamente 26% dos votos válidos no primeiro turno, e Allyson conseguiu atrair uma parcela expressiva desse eleitorado.
Vamos trabalhar com uma hipótese: dos 26 pontos percentuais de Álvaro, cerca de 20 teriam migrado para Allyson, como sugerem algumas pesquisas. Trata-se de uma transferência significativa, capaz de fortalecer bastante sua votação.
Do outro lado, Cadu investe fortemente no eleitor de Lula. E sua equação possui uma característica decisiva: cada eleitor que votou em Lula para presidente e em Allyson para governador, ao mudar seu voto estadual para Cadu, provoca um efeito duplo na diferença entre os candidatos.
É um voto que sai de Allyson e entra na conta de Cadu. Ou seja, cada voto transferido representa uma redução de dois votos na diferença entre eles.
Essa é a matemática que pode decidir a eleição.
Por isso, mais importante do que observar isoladamente os percentuais apresentados pelas pesquisas, é compreender como essas duas movimentações estão acontecendo. Quantos votos de Álvaro Dias estão efetivamente migrando para Allyson? E quantos eleitores de Lula que votavam em Allyson estão agora transferindo seu apoio para Cadu?
O resultado final dependerá, em grande medida, de quem tiver mais êxito na sua tarefa.
E quem está levando vantagem neste momento?
Para não fugir à minha característica de deixar sempre as opiniões muito claras, observo que existe, neste momento, um sentimento de vitória entre os apoiadores de Cadu bem mais elevado do que entre os eleitores de Allyson.
O ânimo da campanha petista está mais evidente, a militância demonstra maior entusiasmo e as mobilizações de rua parecem mais intensas. Existe uma atmosfera de confiança que se fortaleceu ao longo deste segundo turno.
Isso não significa, necessariamente, que Cadu esteja matematicamente à frente. Entusiasmo de militância e mobilização de rua não são sinônimos de maioria nas urnas. Mas são elementos políticos que precisam ser considerados na análise do momento eleitoral.
Minha avaliação é que, neste instante, Cadu apresenta uma perspectiva de vitória maior do que Allyson. Não se trata de uma previsão definitiva, mas de uma leitura do ambiente político e dos movimentos que estão acontecendo.
Se as pesquisas, com todas as suas fragilidades, ao longo desta última semana trouxerem números favoráveis a um ou a outro, esse ambiente poderá mudar. O ânimo de uma campanha, assim como a confiança de uma militância pode sofrer abalos ou impulsões diante de resultados favoráveis ou desfavoráveis.
Estamos diante de uma eleição em que pequenas movimentações podem produzir grandes consequências.
Por enquanto, a única certeza é que ninguém pode comemorar antecipadamente.
E, nessa disputa tão apertada, vamos vivendo um dia de cada vez.

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