Gláucio Tavares Costa*
Até as pedras sabem, como diria o intrépido ministro Gilmar Mendes. Entretanto, como alguns ainda desconhecem ou fingem ignorar, vou desenrolar o filamento de DNA do escândalo do Banco Master.
Em fevereiro de 2019, quando o Banco Central era presidido pelo economista Ilan Goldfajn — alçado ao cargo pelo ex-presidente Michel Temer —, Daniel Vorcaro teve seu pedido de aquisição do Banco Máxima negado. Na ocasião, o grupo de controle liderado por Vorcaro não conseguiu comprovar a origem dos recursos nem demonstrar capacidade financeira suficiente para assumir a instituição.
Contudo, a semente que não germinou outrora desabrochou pouco tempo depois. Indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro, Roberto Campos Neto assumiu a presidência do Banco Central em 28 de fevereiro de 2019. Já em outubro do mesmo ano, a autoridade monetária aprovou a transferência do controle do Banco Máxima para as mãos de Vorcaro, sob as bênçãos do novo comando do BC.
No curso do governo Bolsonaro, a instituição financeira rapidamente fincou raízes. Em 11 de setembro de 2020, obteve autorização do INSS para oferecer crédito consignado a aposentados e pensionistas, resultando na concessão de cerca de 250 mil empréstimos com fortes indícios de irregularidades e ausência de consentimento válido dos segurados. Em outra vertente, o Banco Central assistia imóvel enquanto o Banco Master operava um esquema massivo de fraudes, ofertando rentabilidade de CDB a até 140% do CDI — sinal claro de alto risco de crédito —, ao mesmo tempo em que simulava empréstimos fictícios para inflar falsamente suas carteiras.
Enquanto o esquema avançava, os bastidores políticos ferviam, como revelaram áudios obtidos nas investigações, nos quais interlocutores desabafavam: “Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente está passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né? E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”
Paralelamente, 18 fundos previdenciários estaduais e municipais, comandados por aliados políticos, aplicaram valores vultosos em letras financeiras do Banco Master, culminando na maior fraude bancária da história do país. Do caixa dos servidores públicos aposentados do Estado do Rio de Janeiro, foram drenados R$ 970 milhões; do Amapá, R$ 400 milhões; do município de Maceió/AL, R$ 97 milhões, estendendo-se o golpe a outros 15 entes federados até atingir o montante de R$ 1,86 bilhão. Nesse ínterim, o patrimônio declarado de Daniel Vorcaro saltou de R$ 218 milhões em 2018 para R$ 2,6 bilhões em 2024.
Ao ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, coube a decisão política de autorizar os aportes do Rioprevidência ao banco de Vorcaro. O repasse de R$ 970 milhões ocorreu em diversas parcelas entre outubro de 2023 e julho de 2024. Ademais, os investimentos contínuos em fundos ligados ao grupo do Banco Master elevaram a exposição total do fundo fluminense para valores bilionários, gerando graves alertas por parte do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) devido ao elevado risco aos aposentados.
A contrapartida dessas operações cruzadas transbordou para o financiamento político. Conforme revelado pelo site Intercept Brasil, Daniel Vorcaro pagou cerca de R$ 61 milhões para financiar o projeto cinematográfico Dark Horse, ligado à família Bolsonaro. Em mensagem explícita de cobrança datada de 16 de novembro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro cobrou novos repasses do banqueiro em tom amistoso: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
A inevitável quebra e posterior liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central, geraram um rombo estimado em dezenas de bilhões de reais, deixando os regimes próprios de previdência social — que por lei não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — na fila de credores da massa falida. É o maior prejuízo da história recente do sistema financeiro brasileiro.
Diante do rastro de destruição das poupanças públicas, a pergunta que ecoa nas instâncias de controle e na sociedade permanece: quem deu o parto, aninhou, deu leite e também tomou do leite do banqueiro corrupto?
*É analista judiciário do TJRN, mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico e graduado em Farmácia pela UFRN.
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