13/09/2026
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Flávio Bolsonaro cobrou Daniel Vorcaro pagamentos que seriam para o financiamento do filme sobre o pai, Jair BolsonaroFlávio Bolsonaro cobrou Daniel Vorcaro pagamentos que seriam para o financiamento do filme sobre o pai, Jair Bolsonaro — Foto: Montagem feita pela Editoria de Arte

O segredo caiu. E agora começa a aparecer o que estava escondido no inquérito que investiga o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

A investigação não começou agora.

André Mendonça autorizou sua abertura em 22 de julho, atendendo a um pedido da Polícia Federal que recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.

Durante quase dois meses, portanto, o país não soube que um candidato à Presidência estava formalmente sob investigação por três crimes graves — além de eventuais delitos correlatos.

E mesmo quando Mendonça, provocado pelo presidente do STF, Edson Fachin, abriu uma primeira leva de documentos do caso Banco Master, o inquérito do Dark Horse continuou fechado.

A PGR reclamou.

Disse que grande parte dos procedimentos permanecia fora do material disponibilizado e pediu a abertura integral. Fachin voltou a agir, deu 24 horas para que Mendonça retirasse o sigilo, preservando exclusivamente diligências em andamento cuja publicidade pudesse prejudicar a investigação.

Na noite desta sexta-feira, Mendonça finalmente retirou o sigilo de outros 39 procedimentos.

Entre eles, o Dark Horse.

E o que começa a surgir dos documentos ajuda a explicar por que Flávio deixou de ser apenas um personagem citado na investigação para se tornar formalmente investigado.

Segundo relatório da Polícia Federal, Flávio era interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações para financiar o filme sobre seu pai.

Não se trataria, segundo a PF, de uma participação lateral.

Os investigadores registram mensagens, reuniões presenciais, acompanhamento das gravações e reiteradas cobranças feitas por Flávio para que Vorcaro realizasse os pagamentos.

O valor negociado chegaria a pelo menos US$ 24 milhões.

Documentos da investigação indicam que pelo menos US$ 12,3 milhões foram efetivamente pagos.

Outro Bolsonaro também aparece no caminho do dinheiro.

De acordo com a PF, Eduardo Bolsonaro atuava na gestão dos recursos arrecadados nos Estados Unidos e dava orientações sobre a forma como o dinheiro poderia ser administrado no país.

Parte da estrutura financeira passava pelo Havengate Development Fund, fundo ligado ao advogado Paulo Calixto, que também tem relação profissional com Eduardo.

A Polícia Federal quer saber a origem, o caminho, a destinação e, principalmente, quem foram os beneficiários finais desses recursos.

Há suspeita de que parte do dinheiro arrecadado para a produção possa ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

E há uma frente ainda mais delicada.

A Procuradoria-Geral da República pediu que sejam levantadas as proposições legislativas apresentadas por Flávio Bolsonaro e pelo deputado Mário Frias que eventualmente possam ter beneficiado Daniel Vorcaro ou o Banco Master.

É uma diligência importante para compreender por que a investigação inclui, além de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, a suspeita de corrupção.

O inquérito também se conecta a outras frentes de investigação sobre o financiamento do Dark Horse, inclusive à apuração sobre o uso de emendas parlamentares destinadas por Mário Frias ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, também ligada à produtora responsável pelo filme.

Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade.

Ele reconhece que procurou Vorcaro para conseguir recursos, mas sustenta que buscava financiamento privado para a produção e que não houve qualquer contrapartida. Nesta sexta-feira, antes da abertura integral do procedimento, chegou a pedir publicamente que Mendonça retirasse todo o sigilo, afirmando que a transparência demonstraria que não havia ilegalidade.

Agora o sigilo caiu.

E o que emerge dos documentos é suficiente para mostrar por que a Polícia Federal considerou necessário abrir uma investigação específica sobre o candidato à Presidência.

A própria PF registra que Flávio não aparece simplesmente mencionado em conversas de terceiros.

Aparece como interlocutor direto de Vorcaro.

Negociando recursos.

Cobrando pagamentos.

Participando de reuniões.

Acompanhando o andamento do projeto.

Enquanto isso, Eduardo aparece na gestão do dinheiro nos Estados Unidos, e os investigadores tentam descobrir quem efetivamente recebeu e utilizou os milhões movimentados para financiar o filme.

Isso não significa que Flávio Bolsonaro tenha cometido os crimes investigados. O inquérito está em andamento, não houve condenação e o senador nega qualquer ilegalidade.

Mas uma coisa mudou.

Até ontem, o Brasil sabia que Flávio Bolsonaro era investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, mas não conhecia boa parte dos elementos que haviam levado a Polícia Federal até ele.

Depois de duas intervenções de Fachin, de uma reclamação da PGR e da retirada do sigilo por André Mendonça, essa história começou finalmente a sair dos autos.

E ela mostra que Flávio Bolsonaro não chegou ao inquérito por acaso.

Thaisa Galvão ***

Publicado por: Chico Gregorio

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