Valorização do mineral estratégico, impulsionada pelas restrições da China, abre uma nova janela de oportunidades para o Rio Grande do Norte que ainda exporta praticamente só o minério concentrado.
O velho tungstênio do Seridó potiguar voltou a valer ouro ou quase isso.
O preço internacional do mineral disparou em 2026 e colocou novamente o Rio Grande do Norte no radar da mineração mundial. No primeiro semestre deste ano, o Estado exportou US$ 6,8 milhões em tungstênio, contra US$ 1,5 milhão no mesmo período de 2025. A alta foi de impressionantes 356%.
E o mais curioso é que a produção não aumentou na mesma proporção. O que explodiu foi o preço. O quilo do concentrado passou de US$ 19,22 para US$ 76,98 em apenas um ano.
Mas, quem foi o responsavel por essa proesa? A explicação está do outro lado do mundo. A China responde por cerca de 83% da produção mundial de tungstênio e, ao restringir exportações, reduziu a oferta internacional de um mineral considerado estratégico para setores como defesa, aeroespacial, eletrônica, ferramentas industriais, energia e semicondutores.
A chamada Província Mineral do Seridó concentra importantes ocorrências de tungstênio, especialmente na região de Currais Novos, onde estão operações tradicionais como a Mineração Tomaz Salustino, responsável pela Mina Brejuí, e a Acauan.
O mais interessante é que os estudos geológicos indicam que o potencial da região pode estar longe de ter sido totalmente explorado. Existem áreas classificadas pelo Serviço Geológico do Brasil como de alto e muito alto potencial para o mineral. Ou seja: a história da scheelita no Seridó pode ainda está na infancia da exploracao.
A disparada dos preços também mudou a lógica dentro das próprias minas. Material que durante décadas foi tratado como rejeito agora pode voltar a ser economicamente interessante. A Mina Brejuí acumulou milhões de toneladas de material de baixo teor e já trabalha em estudos para recuperar o tungstênio desses estoques.
A pesquisa envolve a Universidade de Hannover, na Alemanha, e a UFRN. É uma espécie de segunda mineração, em vez de procurar apenas novas jazidas, a indústria passa a olhar para aquilo que ficou para trás.
Uma simulação apresentada pela Brasil Mineral mostra que cerca de 177 toneladas de concentrado que o RN poderá exportar em 2026 representariam aproximadamente R$ 70 milhões em vendas. Se o mesmo material fosse transformado em pó de carboneto de tungstênio, o valor poderia chegar a aproximadamente R$ 115 milhões.
Empresas estrangeiras estão ampliando pesquisas e investimentos em minerais estratégicos no Nordeste, enquanto fundos internacionais começam a direcionar recursos para projetos brasileiros de tungstênio.
O movimento ganha força porque o mineral deixou de ser apenas uma commodity de interesse regional. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica e geopolítica entre grandes potências, minerais críticos passaram a ter valor estratégico e o tungstenio ganha forcca.
Pode ser uma oportunidade para o Seridó discutir beneficiamento, tecnologia, formação de mão de obra, pesquisa mineral e atração de indústrias.
Entre janeiro e julho deste ano, o tungstênio gerou cerca de R$ 1,5 milhão em Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), espécie de royalty pago pelas empresas pela extração do minério para o Rio Grande do Norte. É dinheiro importante, mas pequeno diante do potencial econômico de uma cadeia que movimenta dezenas de milhões de reais.
Porque, desta vez, o minério está valendo muito mais.
Resta saber se o Rio Grande do Norte vai aproveitar a oportunidade para também valer mais na cadeia global.

0 Comentários