23/08/2026
08:47

Luiz Inácio Lula da Silva

247 – A pesquisa Datafolha divulgada anteontem trouxe um recado claro: a ofensiva movida nas últimas semanas contra o presidente Lula não conseguiu abalar de forma significativa sua liderança.

No primeiro turno, Lula aparece com 39% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro. A diferença se estreitou ligeiramente em relação a julho, mas ainda garante ao presidente uma vantagem confortável.

No cenário de segundo turno, o placar é 47% a 43%. Na avaliação de governo, 47% aprovam e 50% desaprovam a gestão — números estáveis, dentro da margem de erro em relação aos levantamentos anteriores.

Não é o quadro de uma candidatura em crise. É o quadro de uma disputa que segue com Lula na frente, mesmo sob fogo cerrado.

Nas últimas semanas, setores da Polícia Federal e a mídia de inspiração lava-jatista transformaram em espetáculo dois inquéritos que tramitam sob a relatoria do ministro André Mendonça no STF. Um investiga suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O outro trata da saída de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, da chefia de gabinete da Presidência, após a revelação de um empréstimo pessoal recebido de uma lobista também investigada.

São processos reais, que seguem seu curso e cujo desfecho ninguém pode antecipar. Mas foram tratados, por semanas, como se já fossem veredicto.

A quantidade de vazamentos protegidos por sigilo de Justiça que inundaram portais e programas não foi acidental. Tratava-se de uma tática de guerra de desgaste disfarçada de jornalismo.

Ela tinha um alvo e um cronograma: chegar à reta final da campanha com o maior estrago possível à imagem do presidente. A tentativa era recriar o efeito Lava Jato — a operação que não apenas impediu a eleição de Lula em 2018, mas o levou ao cárcere por meio de um processo marcado por evidências de ilegalidade que já vinham à tona durante seu próprio curso.

A aposta era clara: transformar acusações contra terceiros, ainda sob apuração, em condenação moral do próprio Lula, e com isso abrir caminho para Flávio Bolsonaro.

Os números do Datafolha mostram que essa aposta não vingou. O eleitor parece ter distinguido o que é fato apurado do que é factoide fabricado para consumo eleitoral.

Isso não significa que os casos percam relevância. Pelo contrário, merecem investigação, seja qual for o resultado. Mas o eleitorado não parece disposto a responsabilizar Lula por supostas decisões e condutas de terceiros que ainda não foram sequer denunciados formalmente, muito menos julgados.

Convém observar o contraste de ritmo. Enquanto o inquérito sobre vazamentos ligados a Fábio Luís foi ampliado por Mendonça em questão de dias, outro processo sob a mesma relatoria caminha em passo bem mais lento.

É o caso que apura os R$ 61 milhões repassados pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro, para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro negociada pelo próprio Flávio Bolsonaro.

Nesse caso, pesa a suspeita — ainda em apuração, é bom frisar — de que parte dos recursos tenha sido desviada para sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Lá, ele articula junto ao governo estadunidense sanções contra autoridades brasileiras e o próprio STF. Essa pressão teve no Pix, sistema de pagamentos criado pelo Banco Central, um dos alvos declarados, ao lado da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de derrubada violenta do Estado democrático de direito.

A notícia-crime que deu origem ao caso é de maio. A autorização para a Polícia Federal abrir o inquérito só saiu em 23 de julho, depois de mais de dois meses de tramitação. A discrepância de velocidade entre os dois processos, ambos nas mãos do mesmo ministro, é um dado que o eleitor tem todo o direito de estranhar.

Com a proximidade do início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, no próximo sábado, o tabuleiro tende a ficar mais equilibrado — e, paradoxalmente, mais favorável a Lula.

Até aqui, a batalha da comunicação foi travada em condições desiguais, com o noticiário dominado por vazamentos seletivos e interpretações tendenciosas.

A partir de sábado, a campanha do presidente terá tempo garantido para lembrar ao eleitor, sem intermediários, o que o governo entregou nos últimos anos: o retorno, o fortalecimento e a criação de novos programas sociais e ambientais, a recuperação do poder de compra do salário mínimo, a geração de empregos, os investimentos em saúde e educação.

É um patrimônio concreto, difícil de apagar com uma campanha de insinuações.

Do outro lado, é razoável esperar que o bolsonarismo aposte pesado na desinformação, terreno em que já demonstrou fluência e disposição para operar nas eleições anteriores.

Mas o horário eleitoral tem uma vantagem que as redes sociais e o noticiário não oferecem: a possibilidade de o próprio governo apresentar seu balanço, sem cortes, sem manchetes descontextualizadas, sem legendas maldosas.

Chegou o momento da verdade. A tentativa de usar investigações em curso como arma de manipulação eleitoral fracassou em produzir o abalo que se esperava.

Lula entra na reta decisiva da campanha na frente, com margem para crescer, e finalmente com os instrumentos para colocar diante do eleitor o resultado de quatro anos de trabalho. Depois de semanas em que o adversário tentou escolher o tema e o tom do debate, é hora de o governo contar sua própria história. O caminho está aberto.

Publicado por: Chico Gregorio

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