16/08/2026
10:42

Álvaro e Allyson oscilam negativamente e Cadu cresce na ...

O POTIGUAR
O DESPISTE

Álvaro Dias quer “ir para o céu sem morrer”. A expressão popular serve perfeitamente para uma estratégia que tenta colher apenas a parte boa da polarização, deixando suas consequências negativas para os adversários. Álvaro fala reiteradamente numa eleição polarizada, mas seus movimentos indicam que ele próprio não pretende fazer uma campanha de Lula x Bolsonaro. Abandonou o “Endireita RN”, fala em método Paulo Freire em suas redes, não ataca Lula, tirou Flávio da campanha, deixou de lado a estética verde-amarela associada ao bolsonarismo e adotou um azul muito mais neutro. A operação é clara: fazer Cadu Xavier e Allyson Bezerra esperarem uma batalha num terreno em que Álvaro não estará. Enquanto os dois olham para a miragem da polarização nacional, ele tentará monopolizar a verdadeira força que hoje movimenta a disputa estadual: o desejo de mudança alimentado pela desaprovação do governo Fátima. Assim, Álvaro pretende ganhar com o antipetismo sem pagar o preço de ser o candidato anti-Lula num estado essencialmente lulista. Quer a vantagem sem o custo. Quer ir para o céu sem morrer.

O PRECEDENTE DE 2024 EM NATAL

A estratégia tem precedente e mira repetir 2024. Paulinho Freire conseguiu colher o antipetismo contra Natália Bonavides sem assumir integralmente o papel de candidato anti-Lula, a ponto de tratar Lula publicamente como “senhor presidente”. Enquanto isso, a campanha de Natália cometeu um erro que Cadu, principalmente pelo alvo que será do antipetismo, mas também Allyson, não pode repetir: aceitou jogar quase exclusivamente na pauta positiva. É verdade que Natália terminou aquela eleição muito maior politicamente do que começou, ampliando enormemente sua base eleitoral em Natal. Mas sua campanha quis discutir UPA, drenagem, propostas e trajetória enquanto o adversário fazia uma guerra política. Paulinho, sua equipe e sua militância martelaram incessantemente a falsa ideia de que Natália “defendia furto” e, nas franjas subterrâneas da campanha – além da mídia de Natal pouco acostumada com a civilidade moderna -, circulavam fake news e muita baixaria de que ela “gostava de bandido” e que seria usuária de maconha. Carros de som reproduziam ataques nas periferias e perfis falsos faziam a festa nas redes sociais. Tudo isto foi noticiado por este blog.

A Justiça Eleitoral demorou a conter esse material. A ideia de que Natália defendia o furto por necessidade só foi tornada fake news praticamente no último dia de campanha. Enquanto Natália tentava vender uma pauta propositiva, o adversário definia o verdadeiro assunto da eleição – um senhor desprendido, sem vícios, de família e empresário de sucesso X uma menina defensora de bandidos e usuária de drogas.

A IMPORTÂNCIA DA CAMPANHA NEGATIVA

E aqui está a lição decisiva para 2026: não se enfrenta uma campanha negativa apenas apresentando as próprias virtudes. Natália preservou demasiadamente um adversário cujo passado social e político oferecia farto material para contraste. Não explorou as vulnerabilidades de Paulinho Freire e permitiu uma disputa assimétrica: apanhava enquanto tentava discutir propostas. Em Fortaleza, o PT escolheu caminho diferente contra o adversário bolsonarista: colou Bolsonaro ao candidato, abriu sua história política e moral e transformou seus pontos frágeis em assunto eleitoral.

No RN, Cadu e Allyson precisam compreender que Álvaro não lhes oferecerá a mesma cortesia. Se a campanha caminhar como seus primeiros movimentos indicam, sua trajetória será usada contra eles sem cerimônia. Até a verdade virará material para ataque. Portanto, a trajetória de Álvaro também terá de passar pelo escrutínio mais duro possível: episódios como o chamado “trem da alegria” na Assembleia, nomeações de parentes na AL e quaisquer controvérsias documentadas de suas administrações, inclusive envolvendo as suspeitas levantadas por órgãos de controle contra a engorda de Ponta Negra, operação Rebotalho; nada deve ser cerceado do público. Não se responde a uma guerra de narrativas com propaganda de sabonete. Caso exista alguma hesitação, basta ler o material elaborado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECCO) sobre 2024 em Natal que ela sumirá rapidamente.

GRUPO QUE JOGA PESADO

Isso é ainda mais importante porque Álvaro contará com um grupo político acostumado a campanhas pesadas. É o mesmo núcleo político-profissional associado a disputas agressivas do passado potiguar, inclusive campanhas contra Fátima Bezerra, vítima de homofobia em 2008 para eleger Micarla em Natal, Natália Bonavides nos fatos já narrados e muitas outras mais.

Campanha negativa, evidentemente, é mais difícil: exige senso de proporção, pesquisa qualitativa, escolha correta do alvo e precisão absoluta do momento, porque o exagero produz efeito bumerangue. Para o marketing, para uma campanha, é muito mais confortável vender apenas as qualidades do candidato. Só que conforto não ganha necessariamente eleição. Cadu e Allyson precisam perceber que Álvaro está tentando levá-los para um campo de batalha enquanto ele próprio ocupa outro terreno. Se aceitarem a miragem, poderão descobrir tarde demais que passaram a campanha brigando entre si e contra um espantalho enquanto Álvaro monopolizava a mudança e escolhia quando e onde atacá-los. Weber já advertia sobre a dureza própria da política: quem pretende salvar apenas a própria alma deve procurar outro lugar. Em 2026, ninguém deveria esperar delicadeza. É hora dos adultos entrarem em campo.

Publicado por: Chico Gregorio

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