Por João Vítor* e Barbara Costa**
A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte não foi concessão das elites, nem presente de governos benevolentes. A UERN é fruto direto da luta política, da mobilização popular e, sobretudo, da ação organizada de estudantes, professores e trabalhadores que compreenderam, desde cedo, que educação pública, gratuita e de qualidade é ferramenta de emancipação da classe trabalhadora.
Defender a UERN hoje é dar continuidade a uma história de enfrentamentos contra projetos que sempre tentaram transformar o conhecimento em privilégio e a universidade em mercadoria.
A estadualização da antiga FURRN, conquistada em 1986, é prova viva disso. Nada ali foi simples ou automático. Foram meses de articulação política, caravanas, assembleias e pressão popular. Estudantes e professores ocuparam ruas, praças, rádios e parlamentos porque sabiam que sem estadualização, a universidade não sobreviveria.
Quando, em agosto daquele ano, caravanas saíram da Praça da Catedral em Mossoró rumo a Natal, não iam pedir favores. Iam exigir um direito. A presença estudantil nas mobilizações, acompanhando reuniões, audiências públicas e sessões parlamentares, foi decisiva para que a proposta avançasse simultaneamente na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal. E a estadualização aprovada em setembro de 1986 abriu um novo ciclo de disputas.
Desde então, a história da UERN é atravessada por tentativas recorrentes de privatização, sucateamento e desmonte. Cortes orçamentários, atrasos salariais, discursos de “ineficiência” e propostas de terceirização sempre aparecem como ferramentas do mesmo projeto neoliberal, que reduz o papel do Estado, subordina políticas públicas ao mercado e criminaliza o pensamento crítico.
Em todas essas tentativas, o movimento estudantil esteve presente. Ocupamos reitorias, pressionamos governos, dialogamos com a sociedade e construímos diálogos com sindicatos e movimentos populares. Não por acaso, a UERN se consolidou como uma universidade enraizada na realidade social do Rio Grande do Norte, formando profissionais filhos e filhas da classe trabalhadora que dificilmente teriam acesso ao ensino superior sem a universidade pública.
É justamente por isso que a UERN incomoda.
Em ano eleitoral, os ataques se intensificam. Blogs alinhados à extrema direita, políticos conservadores e setores do bolsonarismo local passaram a mirar a universidade como inimiga ideológica. A estratégia é conhecida, o que eles querem é deslegitimar a produção científica, atacar professores, criminalizar estudantes e preparar o terreno para o desmonte institucional.
Esses ataques chocam frontalmente com as conquistas recentes da universidade, especialmente a autonomia financeira e o fim da lista tríplice para escolha da reitoria. Essas vitórias não caíram do céu. Foram fruto de décadas de luta da comunidade acadêmica e de um compromisso político claro com a educação pública, assumido durante o governo de Fátima Bezerra.
Essas mudanças alteraram a relação da UERN com o Estado, garantindo mais estabilidade, planejamento e respeito à vontade democrática da comunidade universitária. Pela primeira vez, a universidade passou a ter condições reais de se autogovernar, sem chantagens orçamentárias e sem interferências políticas diretas. Com a autonomia financeira conquistada durante o governo de Fátima, a UERN também se transformou, com investimentos em infraestrutura e ampliação de políticas institucionais. Nesse mesmo período, fruto da mobilização histórica do movimento estudantil, houve avanço nos recursos destinados à assistência estudantil, fortalecendo as condições de permanência dos filhos e filhas da classe trabalhadora na universidade.
Hoje, a UERN encontra-se presente em seus 6 campi e 19 polos de educação a distância (EAD), desempenhando um papel fundamental na interiorização do ensino superior no estado. A instalação que hoje oferta 67 cursos de graduação, e ao longo dos seus 57 anos de história, já concedeu mais de 60 mil diplomas, contribuído significativamente para a formação acadêmica e profissional do povo potiguar.
É exatamente esse modelo que está sob ameaça.
A pré-candidatura do atual prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, ao Governo do Estado representa um risco à UERN e a tudo o que ela simboliza.
Em Mossoró, Allyson implementou um modelo de gestão marcado pelo endividamento acelerado do município, pela multiplicação de contratos com empresas terceirizadas e pelo esvaziamento de instâncias democráticas. Serviços públicos passaram a ser tratados como oportunidades de negócio, enquanto trabalhadores foram precarizados e silenciados.
Sua relação com a democracia é reveladora. Reduziu drasticamente o duodécimo da Câmara Municipal, fragilizando um poder independente. Arquivou projetos que garantiam eleições diretas em escolas e UEIs. Centralizou decisões e passou a controlar processos que deveriam ser conduzidos por entidades representativas dos trabalhadores. Onde há autonomia, Allyson enxerga ameaça.
Esse histórico importa muito quando falamos de universidade pública.
A UERN conquistou o direito de escolher sua reitoria sem lista tríplice justamente para impedir interferências autoritárias. A autonomia financeira foi pensada para proteger a universidade de governos hostis. Uma eventual chegada de Allyson ao Executivo estadual colocaria essas conquistas sob ataque direto.
Mas o ataque não é apenas institucional. Ele é material, concreto, cruel.
No final de 2025, às vésperas do Natal, a Prefeitura de Mossoró promoveu a demissão de cerca de cerca de 500 estagiários, esse número é apenas de estudantes da UERN, ainda houve das demais universidades da cidade. Jovens que dependiam dessa renda para garantir transporte, alimentação e permanência nos cursos foram descartados sem diálogo, sem transição e sem qualquer política de proteção social.
Esse episódio escancara o projeto em disputa. Para Allyson Bezerra e o bolsonarismo que o sustenta, a permanência estudantil não é prioridade. Para nós, ela é condição básica para que o direito à educação exista de fato.
Não é coincidência que ataques coordenados tenham se intensificado em blogs e redes alinhados à extrema direita. Trata-se de uma ofensiva ideológica que visa preparar o terreno para o desmonte, criminalizando estudantes e tentando isolar a universidade da sociedade.
Nós, do movimento estudantil, afirmamos com clareza que a UERN não será moeda de troca eleitoral nem muito menos laboratório de experiências neoliberais.
A UERN transforma vidas. Ela garante que filhos e filhas da classe trabalhadora ocupem espaços historicamente negados. Ela produz ciência comprometida com o povo, fortalece a cultura popular e forma sujeitos críticos capazes de transformar a realidade ao seu redor.
A história da UERN nos ensinou que nenhum direito foi concedido sem luta, e nenhum será mantido sem resistência. Diante do avanço do bolsonarismo, da extrema direita e do projeto capitalista neoliberal, nossa resposta será organização, mobilização e luta.
A UERN é do povo potiguar. E enquanto houver estudante organizado, ela seguirá sendo espaço de resistência, democracia e transformação social
*É estudante do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas na UERN, militante da Juventude do Partido dos Trabalhadores e do movimento Kizomba.
**É graduada em geografia pela UERN, militante da juventude do partido dos trabalhadores e do movimento kizomba, ex-coordenadora geral do DCE da UERN, diretora da União Estadual dos Estudantes do RN (UEE RN),
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