Atos e discursos do presidente Jair Bolsonaro contra o isolamento social como forma de combate à pandemia do novo coronavírus podem estar por trás de pelo menos 10% dos casos e até mesmo de mortes pela Covid-19 registrados no Brasil até ontem. A insistente defesa de Bolsonaro do fim do distanciamento teria afetado o comportamento dos brasileiros, sobretudo nos municípios onde seus seguidores são mais numerosos.
A conta é do economista Tiago Cavalcanti, professor da Universidade de Cambridge, e um dos autores do estudo “Mais do que palavras: discurso de líderes e comportamento de risco durante a pandemia”, divulgado nesta segunda-feira, em parceria com Nicolás Ajzenman e Daniel Da Mata, da Fundação Getúlio Vargas-SP.
Dois eventos em especial teriam provocado um movimento adicional de nada menos que um milhão de pessoas nas ruas pelo país, diariamente, pelo período de 10 dias: a manifestação de 15 de março em Brasília, depois que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia recomendado o afastamento social, e o pronunciamento, em cadeia nacional, de 24 de março, quando o presidente minimizou a doença, tratando-a de “gripezinha”.
Considerando-se o potencial de infecção de cada indivíduo portador do vírus, estes dois atos podem ter sido responsáveis, sozinhos, por pelo menos 500 novos casos por dia. Trata-se de 10 mil infectados num horizonte de apenas 10 dias. Ou seja, cerca de 10% do número de brasileiros oficialmente registrados como portadores da Covid-19 até ontem (domingo).
Cavalcanti reconhece que a conta pode estar subestimada. Isso porque os cálculos levam em consideração apenas os 10 dias subsequentes aos dois eventos e têm por base os casos registrados oficialmente no país. A mesma equação aplicada aos dados de óbitos indica que as manifestações podem estar por trás de pelo menos 700 mortes.
— Não é preciso muita gente para espalhar o vírus. Se esses eventos e discursos não tivessem acontecido, talvez tivéssemos 10 mil casos e 700 óbitos a menos — disse Cavalcanti ao GLOBO


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